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Falta capacitação para atender pessoas com autismo, dizem debatedores

Cosmam debateu, nesta terça-feira (13/6), o atendimento em saúde aos autistas e políticas de inclusão

  • Comissão propõe debate ao tema autismo com autoridades no assunto. Na foto, da esquerda para à direita, o psicólogo Gabriel Mazzini e os vereadores José Freitas, Moisés Maluco do Bem, André Carús e Oliboni.
    Vereadores destacaram importância da conscientização sobre o tema(Foto: Henrique Ferreira Bregão/CMPA)
  • Comissão propõe debate ao tema autismo com autoridades no assunto. Na foto, o professor da Faculdade de Medicina da UFRGS, Rudimar Riesgo.
    Rudimar Riesgo disse que casos de autismo podem ser identificados na triagem(Foto: Henrique Ferreira Bregão/CMPA)

O trabalho com o corpo e a terapia ocupacional são aspectos centrais para o tratamento das pessoas com espectro autista, mas geralmente são relegados a um segundo plano pelos profissionais de saúde. A afirmação foi feita pela diretora do Instituto Autismo e Vida, Renata Bonotto, durante reunião da Comissão de Saúde e Meio Ambiente (Cosmam) da Câmara Municipal de Porto Alegre que discutiu, nesta terça-feira (13/6) pela manhã, o atendimento às pessoas com autismo na Capital. O tema da reunião foi proposto pelo vereador Moisés Maluco do Bem (PSDB), que destacou que, além de elaborar leis, o Legislativo deve também discutir temas que tenham relação direta com a vida das pessoas.

Segundo Renata Bonotto, dados estimam que 1% a 2% da população, entre adultos e crianças, tenha autismo. “O autismo é um transtorno do desenvolvimento. As pessoas autistas têm um desenvolvimento diferenciado do cérebro. Costumamos rotulá-los como deficientes intelectuais, o que dificulta mais ainda a sua inclusão na sociedade O autista, muitas vezes, tem problemas para se comunicar, e a agressividade pode estar relacionada ao fato de não conseguir se expressar.”

Mãe de um menino de 10 anos, que tem autismo, Renata explicou que o Instituto Autismo e Vida é uma organização não governamental sem fins lucrativos surgida em 2009, a partir da iniciativa de familiares de crianças autistas e que se estendeu a outras pessoas. Com a atuação da ONG, diz Renata, houve um crescimento da divulgação de informações e esclarecimentos sobre a doença e, em consequência, da conscientização sobre o tema. “Muitos órgãos públicos pedem que o Instituto ministre palestra aos seus profissionais. As reuniões do Autismo e Vida tratam de temas como apoio às famílias e direitos das pessoas com autismo. Hoje temos políticas públicas de proteção às pessoas com espectro autista. Mas a atenção em saúde a este segmento precisa ser pensada para ser articulada em rede. É necessário também um diagnóstico mais ágil. Não existe intervenção precoce em Porto Alegre, que poderia evitar casos de autismo severo.”

Capacitação

Autista e portador do transtorno de déficit de atenção (TDA), Otávio Abuchaim é membro do Instituto Autismo e Vida. Ele lembra que, quando era estudante, tinha facilidade na disciplina de Física, mas muitas dificuldades nos estudos que envolvessem imagens. Otávio destacou que há diferentes níveis de autismo e que 70% destas pessoas possuem retardo mental. “As políticas de saúde não vão bem”, disse ao comentar o atendimento aos autistas. Relatou que deixou de dirigir automóveis ao perceber que o seu déficit de atenção poderia prejudicá-lo quando estivesse ao volante e causar acidentes. Em relação ao ensino, defendeu que é preciso uma adaptação das escolas para que consigam atender as crianças com necessidades especiais. “Não se pode exigir que todas as crianças estejam no mesmo padrão.”

Renata Bonotto também chamou a atenção para o fato de que a maioria dos profissionais em saúde do Sistema Único não estão capacitados para atender pessoas autistas. “Há uma atenção fragmentada e inconsistente no SUS. Gastam-se recursos públicos e não se obtém resultados.” Mas a falta de capacitação profissional também é um problema em outras áreas profissionais. “Às vezes, a criança precisa atendimento odontológico, mas o profissional não sabe como lidar com autistas.”

Ela lembra ainda que cerca de 40% das pessoas com autismo também sofrem de epilepsia e considera que, além da capacitação profissional, seria importante a criação de um centro de referência que mantivesse um grupo interdisciplinar para atendimento aos autistas, bem como uma atenção às famílias dessas pessoas. “Muitas mães param de trabalhar para cuidar dos filhos autistas. Há um adoecimento da família.” Renata aponta também que faltam dados sobre o número de pessoas com autismo em Porto Alegre e sugere que se estudem casos de instituições que sejam referência no atendimento ao autista.

Diagnóstico

Professor da Faculdade de Medicina da UFRGS, o neuropediatra Rudimar Riesgo disse que os casos de autismo em crianças podem ser identificados por um teste rápido feito na triagem do atendimento em saúde. Para ele, a equipe ideal para atendimento aos autistas deveria contar com médicos, fonoaudiólogos, psicólogos e terapeutas ocupacionais. “O autismo não é tratável com psicanálise. O atendimento ao autista não deveria ser apenas medicamentoso.” Rudimar observa que as crianças com autismo têm dificuldades de convivência social e “um desenvolvimento diferente e prejudicado” em relação às outras crianças. “Isso causa muito sofrimento à família, que também precisaria ser assistida.”

Destacando a importância do tema e o crescente nível de conscientização da sociedade sobre os problemas enfrentados pelas pessoas com autismo, o presidente da Cosmam, vereador André Carús (PMDB), observou que as pautas da Comissão levam sempre em conta a “prevalência do interesse público e uma linha de trabalho humanista”. Ele disse que nova reunião sobre o tema deverá ser agendada, desta vez com a participação da Secretaria Municipal de Educação e dos conselhos tutelares.

Também estavam presentes à reunião representantes da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc), Conselho Municipal de Saúde (CMS), da  Fundação de Educação e Cultura do Sport Club Internacional (Feci), além dos vereadores Mauro Pinheiro (Rede), Aldacir Oliboni (PT) e José Freitas (PRB).

Texto: Carlos Scomazzon (reg. prof. 7400)
Edição: Marco Aurélio Marocco (reg. prof. 6062)