Institucional

Sessão no Catamarã avalia transporte hidroviário e relação com Guaíba

Dentro do projeto Câmara na Rua, os debates prosseguiram à tarde a bordo do barco Cisne Branco

Movimentaçao da sessão especial a bordo do Catamarã.
Nagelstein e os colegas vereadores reunidos na proa do Catamarã(Foto: Tonico Alvares/CMPA)

A valorização do transporte hidroviário, as condições ambientais do manancial hídrico e a relação da cidade com o Lago Guaíba, incluindo turismo e esportes náuticos, foram os pontos abordados na primeira etapa da Sessão Especial realizada a bordo do Catamarã, na manhã desta quinta-feira (12/4), pela Câmara Municipal de Porto Alegre. A atividade marcou também o início do projeto Câmara na Rua, idealizado pela atual Mesa Diretora, que, a partir de agora, passará a promover ações regionalizadas e temáticas descentralizadas na cidade.

De acordo com o presidente do Legislativo, Valter Nagelstein (PMDB), esse é um importante movimento do Parlamento para incentivar os mais de 1,5 milhão de habitantes a refletir sobre a relação da sociedade com o Guaíba. “Temos que unificar os olhares do passado, presente e futuro; refletir que é no Guaíba, que se dá o nascimento de Porto Alegre, analisar o seu papel no desenvolvimento da cidade e, a partir disso, fazermos todos uma profunda reflexão dos erros cometidos até aqui, para não repeti-los”, disse. O vereador apontou que é preciso criar consensos em torno do resgate do Guaíba para os porto-alegrenses, deixando de lado as "paixões político-ideológicas", para que, com "coração e cérebro", seja possível estabelecer a "necessária reaproximação”.

O presidente da Casa agradeceu a logística da realização da Sessão Especial, colocada à disposição pelo empresário Hugo Fleck, que administra a CatSul, concessionária do transporte hidroviário no Guaíba. Nagelstein referiu também a necessidade de que seja feito um amplo debate para definir o melhor método para a ampliação das linhas do modal em direção ao Extremo Sul e à Zona Norte. Ainda lembrou que, quando esteve à frente da Secretaria Municipal de Urbanismo, foi realizado um estudo arquitetônico com previsão de construção de 12 atracadouros para atender à população nesse percurso.

Travessia

A primeira etapa da sessão durou cerca de duas horas. As manifestações de integrantes da mesa e dos vereadores foi feita ao longo de um trajeto especial, a bordo do Catamarã, desde o Cais Central até a Zona Sul, seguindo pela costa da cidade de Guaíba e ilhas, com destino na Ilha do Pavão, sede do Grêmio Náutico União, onde um almoço foi oferecido aos participantes.

A atividade contou com a presença de 18 dos 36 vereadores, além do deputado estadual Tiago Simon, representando a Assembleia Legislativa; de Marcelo Soletti, diretor-presidente da EPTC; do capitão de mar e guerra Amaury Marcial Gomes Júnior, comandante da Capitania dos Portos do Rio Grande do Sul; do tenente coronel Luiz Carlos Neves Soares Júnior, subcomandante do 1º Batalhão de Bombeiro Militar (Porto Alegre); e do empresário Hugo Fleck.

Para Fleck, presidente da Catsul, retomar um serviço essencial desativado por 50 anos foi muito importante. De acordo com ele, hoje o Catamarã possui uma estrutura que oferece atendimento completo aos passageiros. Ele contou que, em 2006, o grupo Ouro e Prata começou a investir no sistema hidroviário. Quatro anos depois, nasceu a empresa Catsul, responsável por realizar o serviço de travessia entre as cidades de Porto Alegre e Guaíba. Conforme Fleck, a empresa já transportou mais de 1 milhão de passageiros até então, tendo em vista que a operação pendular entre os dois municípios recebe em torno de 2.500 pessoas por dia. Para ele, a atividade vai além de prestar o serviço de transporte. “Mais que uma especialidade, é uma paixão”, disse. 

Os terminais projetados nos pontos centrais da Capital também foram destacados por Fleck, que acredita ajudar na acessibilidade dos usuários. Por ser um serviço seletivo, o transporte hidroviário não oferece gratuidades. “Seria inviável”, disse o presidente da Catsul, que defendeu maior investimento no setor e atenção de órgãos públicos. “Viramos as costas para o nosso tesouro, que é o Guaíba”, afirmou. Segundo ele, a linha operacional hidroviária possibilita a geração de emprego e renda, assim como incentiva o turismo na cidade. Fleck também falou sobre o assoreamento em certas regiões como Ipanema, informando que faz três anos que a empresa tenta realizar a dragagem no local. Para ele, é uma ação extremamente necessária, sendo preciso uma autorização permanente das autoridades responsáveis para que se possa desburocratizar o serviço e realizar a função. 

Integração metropolitana

Marcelo Solleti, secretário de Transportes de Porto Alegre e diretor da Empresa Pública de Transporte e Circulação de Porto Alegre (EPTC), afirmou que a EPTC e a Secretaria Municipal de Infraestrutura e Mobilidade Urbana (Smim) são cobradas pelo prefeito Nelson Marchezan Júnior em relação ao transporte hidroviário. Segundo ele, as duas secretarias têm pesquisado dados sobre demanda e viabilidades técnica e financeira para esse meio de condução. “Acompanho o serviço da Catsul e sei que é um modelo de transporte seletivo de alta qualidade, confortável e seguro que merece ser expandido”, comentou sobre o Catamarã.

Ao falar do histórico do serviço da embarcação, destacou o crescimento da cidade de Guaíba desde o início do seu funcionamento, em 2010, e falou de demandas pelo transporte também da Ilha da Pintada e da Zona Sul da Capital. De acordo com Solleti, a burocracia para o aumento do sistema de transportes pelo Guaíba é grande e complexa, incluindo instâncias federais, estaduais e municipais, além de impasses jurídicos. Em esclarecimento a questões levantadas pelos vereadores, declarou que não há manifestação contrária das empresas de ônibus frente ao transporte hidroviário e que existe demanda caso se consiga aumentar o sistema hidroviário de transportes em Porto Alegre. Afirmou, ainda, a existência da possibilidade de integração metropolitana entre os meios de transporte públicos e seletivos - como é o caso do Catamarã.

Tiago Simon falou em nome da Assembleia Legislativa. O deputado estadual ressaltou como "importantíssima" a iniciativa da Câmara Municipal em levar o Parlamento para dentro do Guaíba. Afirmou que a união dos vereadores em torno de problemas estratégicos, como já é realidade nas pautas da ampliação do Aeroporto, da Revitalização do Cais e da construção da segunda ponte do Guaíba, demonstra que esse é o caminho correto. Disse que, no caso específico do transporte hidroviário é preciso equacionar questões como a viabilidade econômica e de investimentos em infraestrutura, capazes de fomentar o modal não apenas para passageiros, mas também para cargas, aproveitando os canais hidroviários existentes no Estado para o escoamento da produção. 

Na Ilha do Pavão

Durante o almoço na sede do Grêmio Náutico União da Ilha do Pavão, após a recepção feita pela direção do clube, o presidente da Câmara da Capital manifestou o agradecimento à entidade. Ainda exaltou a passagem dos 122 anos de história do União, transcorridos no dia 1 de abril passado e comemorados, também, com um ato solene na Câmara. "É uma história que se interliga a da cidade", disse. Nagelstein afirmou também que, juntamente com o diretor-presidente da EPTC, Marcelo Soletti, irá oficiar a empresa responsável pela obra de revitalização do Cais para que revise a posição de impedir que os sócios do clube acessem, pelo portão central, o ancoradouro onde fica a barca que os leva diariamente para a ilha.  

Vereadores 

Diversos vereadores que participaram da sessão especial se pronunciaram:

“Estamos dispostos à produção do senso político para que se consolide o avanço do sistema hidroviário”, declarou Roberto Robaina (PSOL) em apoio às atividades realizadas pela Câmara no Catamarã.  Segundo o vereador, a reunião se fez propícia para produzir pressão às autoridades públicas e privadas para mais investimento na área. 

Para João Carlos Nedel (PP), o transporte hidroviário não terá viabilidade sem a concessão de subsídios. "Sem isso, ele não sobrevive", sentenciou. O parlamentar ainda informou que o projeto citado pelo presidente Nagelstein, que prevê 12 pontos de embarque e desembarque ao longo da costa da margem do Lago em Porto Alegre, já está nas mãos do titular da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade, Maurício Fernandes. 

Reginaldo Pujol (DEM) questionou os empecilhos que impedem a evolução do transporte hidroviário de Porto Alegre. Para o vereador, a alternativa de transporte é muito importante para a população.  “Precisa ser encarado de forma objetiva”, disse.

Para Alvoni Medina (PRB), a questão da acessibilidade dos cidadãos ao transporte requer uma atenção mais dedicada. “É preciso um olhar mais carinhoso”, disse, em relação a pessoas cadeirantes, bem como deficientes visuais.  

Mauro Pinheiro (REDE) afirmou ser essencial um melhor aproveitamento do Lago Guaíba. Diminuir em entraves na gestão pública e integrar todos os modais possíveis de Porto Alegre foram os pontos mais defendidos por ele. “É o grande desafio de Porto Alegre”. Segundo ele, a questão é saber como fazer a integração da Região Metropolitana com a Capital. 

Adeli Sell (PT) disse que é favorável à adoção dos serviços autorizados e às frentes que se criarem para desburocratizar e destravar o desenvolvimento da cidade. Ressaltou que a Lei de Licitações (8.666) é ultrapassada e não resolve a questão da corrupção. Que é preciso um discurso consequente, que incentive o debate de propostas inovadoras que tenham como único interesse o bem público.  

Sofia Cavedon (PT) louvou a iniciativa do debate sobre o transporte hidroviário, mas destacou que ele não pode ser comparado a outros modais, como o dos ônibus, onde é necessária a manutenção de subsídios a setores como o dos estudantes, idosos e outros. Para ela, existe espaço para todos os modais e o hidroviário tem a capacidade, se bem articulado, de reduzir o número de carros nas vias, especialmente na Zona Sul, onde os acessos viários são limitados diante da alta demanda. 

“A gente tem um papel ecológico para produzir um ambiente que possamos usar”, manifestou Felipe Camozzato (NOVO). Segundo ele, a reflexão sobre o transporte hidroviário é importante, visto que o transporte público na Capital está falido. Camozzato opinou que o excesso de regras aumenta o preço dos serviços e a burocracia, destacando que o processo seria facilitado caso o poder público desse o aval para que o empresariado desenvolvesse um estudo sobre o assunto. (AF)

José Freitas (PRB) solicitou que o projeto Câmara na Rua tivesse mais edições, ao menos uma ao mês. “Temos visto que essa mobilidade não evolui por causa de entraves”, disse, lembrando a dificuldade do governo anterior para a implementação do transporte via catamarã. Para ele, a locomoção por meio das águas não atrapalha os outros modelos existentes. (AF)

André Carús (PMDB) salientou que o transporte hidroviário é sustentável, na medida em que evita a emissão de gases prejudiciais à atmosfera, e a sua expansão poderá garantir políticas locais de incentivo ao turismo e de cuidados com a natureza. Para ele, os municípios são a instância mais prejudicada pela burocracia, destacando um estudo urbanístico que comprova que não há conflito entre transporte coletivo e outros modais. Carús falou, ainda, da integração entre os variados tipos de transporte, que poderia ser feita via um bilhete único, e da viabilidade de se pensar em projetos com parcerias público-privadas. (AF)

Também participaram da Sessão Especial os vereadores Aldacir Oliboni (PT), Cassiá Carpes (PP), Comandante Nádia (PMDB), João Bosco Vaz (PDT), Mendes Ribeiro (PMDB), Moisés Barboza (PSDB) e Mônica Leal (PP).  A Sessão Especial continua à tarde a bordo do barco Cisne Branco.

Texto: Milton Gerson (reg. prof. 6539)
           Adriana Figueiredo (estagiária de Jornalismo)
           Munique Freitas (estagiária de Jornalismo)
Edição: Claudete Barcellos (reg. prof. 6481)