Amacais questiona impacto ambiental da revitalização do Cais Mauá

Reunião da Cuthab recebeu especialistas em urbanismo e meio ambiente para discutir obra

  • Questões relacionadas ao Projeto de recuperação do Cais Mauá.
    Francisco Marshall (ao microfone) expôs questionamentos aos vereadores(Foto: Henrique Ferreira Bregão/CMPA)
  • Questões relacionadas ao Projeto de recuperação do Cais Mauá. Na foto, o arquiteto Rafael Passos.
    Arquiteto Rafael Passos criticou "obscuridade" do processo(Foto: Henrique Ferreira Bregão/CMPA)

O Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o respectivo Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) do projeto de revitalização do Cais Mauá pautaram a reunião da Comissão de Urbanização, Transportes e Habitação (Cuthab) da Câmara Municipal de Porto Alegre. O evento, realizado no Plenário Ana Terra na manhã desta terça-feira (16/5), foi conduzido pelo presidente da comissão, vereador Dr. Goulart (PTB). Estiveram presentes técnicos de diversas áreas, ligados à Associação de Amigos do Cais Mauá (Amacais), que apresentaram críticas e questionamentos sobre impactos ambientais e estruturais apresentados na proposta de recuperação do espaço. Apesar de convidado, o Consórcio Porto Cais Mauá, responsável pela obra, não enviou representantes.

Introduzindo o debate, Francisco Marshall, professor de História da Ufrgs, afirmou que o projeto de revitalização "é frágil, pois não possui idoneidade jurídica e não dá atenção às questões de mobilidade e harmonia da cidade. Queremos construir um processo de revitalização com qualidade, por isso defendemos mudanças rigorosas nele”, explicou o professor. Vice-presidente da Amacais, Marshall salientou que a entidade “não é contra o empreendedor e o capital privado, mas defende uma relação cooperativa em que predomine o interesse da cidade”.

Fundador da Amacais, o arquiteto Cristiano Kunze dissertou sobre a área de implementação do shopping previsto no projeto, considerando que o local não é um “terreno pronto” para receber o prédio. Kunze também criticou a comparação da proposta de intervenção no Cais Mauá com concepções desenvolvidas no exterior. “Essas cidades possuem potencialidades que Porto Alegre não tem”, opinou, classificando como “risível” a área projetada para caminhadas rente à orla do Guaíba.

Impactos no Trânsito

“O EIA parte de premissas muito retrógradas e de conceitos que não condizem com cidades humanas e sustentáveis”, descreveu o também professor da Ufrgs Emilio Merino, doutor em Engenharia Urbana, com ênfase na área de transportes. Merino explicou que a empresa construtora admitiu que não há espaço para aumentar a capacidade de tráfego, e que as compensações sociais não resolverão os problemas causados no trânsito pelo empreendimento. “Esse estudo deveria ser completamente revisado, pois é regido por pesquisas muito conservadoras e limitadas”, assegurou.

Na mesma linha, o presidente do departamento gaúcho do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB/RS), Rafael Passos, garantiu que o projeto não se sustenta tecnicamente, mas sim por argumentos ideológicos. “É um exemplo do que não se faz mais em termos de planejamento urbanístico e ambiental”, afirmou. Ainda conforme ele, os trâmites têm corrido de uma forma “obscura e morosa”. “Está acontecendo a maximização de compensação ao privado, enquanto o interesse público é vilipendiado ”, alegou. Rafael defendeu ainda que o projeto retorne à fase do Estudo de Viabilidade Urbanística (EVU), por não cumprir a portaria nº 483/16 do instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que estabelece restrições para intervenções em bens históricos.

Vereadores

Primeiro vereador a se manifestar, Valter Nagelstein (PMDB) descreveu os representantes da Amacais como um “grupo ideológico” defensor de uma “minoria”, derrotada em todas as instâncias. “Para o projeto parar em pé, é preciso ter viabilidade técnica, social e econômica”, disse. O vereador defendeu a revitalização do Cais e a recuperação do Centro Histórico, classificado por ele como “feio, velho e degradado”. “A idade está assim por conta desses setores que não permitem investimentos econômicos”, asseverou Nagelstein.

Contrapondo o colega, Fernanda Melchionna (PSOL) disse ter acompanhado todo o processo de discussão sobre o projeto para a obra do Cais e afirmou que a mesma “atende apenas aos interesses privados sem se preocupar com a cidadania”. “O Tribunal de Contas do Estado já confirmou que não há viabilidade econômica para a obra acontecer”, lembrou Fernanda. A vereadora condenou também o que denominou como "premissas equivocadas adotadas no estudo" e criticou o não comparecimento do Consórcio Porto Cais Mauá.

Por sua vez, o vereador Professor Wambert (PROS) ponderou ser o tema relevante para a cidade e merecedor de atenção visto que terá reflexos nas próximas gerações.

Executivo

Representantes da administração municipal também se fizeram presentes na reunião. Pela secretaria municipal de Serviços Urbanos (Smsurb), o secretário adjunto César Hoffmann afirmou que não se pode retroceder na iniciativa de revitalização, mas que os questionamentos devem ser esclarecidos. “Onde houver dúvidas de caráter ambiental, social e de planejamento, elas devem ser dirimidas”, apontou. Pelo Departamento municipal de Água e Esgoto (Dmae), a engenheira Airana do Canto garantiu que o projeto cumpre os requisitos de abastecimento de água e esgotamento sanitário regrados pelo órgão.

Já o diretor-técnico da secretaria municipal de Planejamento e Gestão (SMPG), arquiteto Glênio Bohrer, confirmou que todas as discussões sobre o Cais Mauá nos órgãos municipais foram feitas por colegiados, e que, ao ser lançado o edital de concessão, o consórcio vencedor apresentou um projeto adaptado ao regimento urbanístico. “O processo correu nos marcos que a lei exige e, inclusive, o empreendedor já foi obrigado a fazer mudanças no projeto original”, salientou.

No final do evento, o presidente da Cuthab, Dr. Goulart, encaminhou a proposta de Fernanda Melchionna, que sugere a realização de um seminário específico sobre o projeto de revitalização do Cais Mauá e seu impacto ambiental. 

Também estiveram presentes no encontro o ex-vereador e ex-secretário do Meio Ambiente Beto Moesch; o professor de sociologia da Ufrgs, Milton Cruz; a presidente da Amacais, Katia Suman; e o vereador Paulinho Motorista (PSB).

Texto: Paulo Egidio (estagiário de Jornalismo)
Edição: Helio Panzenhagen (reg. prof. 7154)