CPI da Pousada Garoa realiza oitiva com Elton Bozzetto
Elton Bozzetto, da Pastoral do Povo da Rua; relator da CPI, vereador Marcos Felipi; e o presidente, vereador Pedro Ruas (Foto: Marlon Kevin/CMPA - Uso público, resguardado o crédito obrigatório) Bozzetto confirmou que conhecia cinco das 11 pessoas que perderam a vida no incêndio da Pousada Garoa e que atuou no atendimento aos sobreviventes (Foto: Marlon Kevin/CMPA - Uso público, resguardado o crédito obrigatório)
A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga o incêndio na Pousada Garoa realizou oitiva, na manhã desta segunda-feira (24/03), com Elton Bozzetto, da Pastoral do Povo da Rua, além de votar e aprovar o plano de trabalho da Comissão. O presidente da CPI, vereador Pedro Ruas (PSOL), abriu a reunião e explicou a ausência da diretora-geral do Instituto-Geral de Perícias (IGP), Marguet Mittmann, que também havia sido convidada para oitiva. “O IGP informou que eles já prestaram suas informações à Polícia Civil e que por ser algo muito reservado, do ponto de vista da tragédia, eles têm a prerrogativa de não se manifestar”, esclareceu Ruas. Conforme o presidente, a EPTC informou que não tem mais as imagens daquele período do incêndio, já a Guarda Municipal tem imagens de algumas horas antes e depois do ocorrido, e que, posteriormente, deve disponibilizar o material à CPI.
Na oitiva com Elton Bozzetto, ele contou que trabalha com a população de rua por uma missão e convicção pessoal, há mais de 30 anos. “É condição mínima para a garantia da dignidade humana que a gente acolha as pessoas, e depois de acolhê-las, atender às suas necessidades básicas e mais importantes. E esta é a orientação que nós trabalhamos na Pastoral do Povo da Rua”, contextualizou.
O presidente da CPI perguntou se ele conheceu algumas das pessoas que faleceram no incêndio da Pousada Garoa, e a testemunha confirmou que conhecia cinco das 11 pessoas que perderam a vida. “Tem duas ou três pessoas que nós acompanhamos depois no atendimento, que inclusive usou um codinome para que não fosse identificado”, por receio de qualquer tipo de retaliação, revelou.
Conforme Bozzetto, a partir das 23h, na Pousada Garoa, as portas eram fechadas e não tinha mais acesso e nem possibilidade de saída. “Nós não vamos recuperar as vidas, nós vamos conviver com a dor da partida. Agora, nós não podemos mais permitir que isso aconteça em Porto Alegre”, pontuou. Também falou que as portas dos quartos da pousada eram trancadas pelo lado de fora.
O relator da CPI, vereador Marcos Felipi (Cidadania), perguntou como as pessoas conseguiram sair da pousada na noite do incêndio. A testemunha afirmou que, segundo relatos recebidos daquela população, que as pessoas saíram pulando as janelas. O relator também pediu a avaliação de Bozzetto do serviço prestado pela Garoa. “A Pousada Garoa está neste rol de dificuldades que nós temos de implantação da política pública em Porto Alegre para a população em situação de rua”, analisou.
Pontuou ainda a complexidade deste tipo de serviço, que vai muito além de um espaço para passar a noite. “O acompanhamento a essa pessoa tem que ser integral, o espaço para pernoitar é apenas um item”, disse. Ele completou que nunca soube de conflitos entre as pessoas que estavam na Garoa quando ocorreu o incêndio, ou de qualquer atuação de facções dentro da pousada.
Quanto ao atendimento dado aos sobreviventes do incêndio pelo município, Bozzetto afirmou que foi falha a tentativa de contato com os familiares das vítimas, pois não havia um cadastro das pessoas e seus parentes. Apontou ainda que foi negligenciado o atendimento psíquico e emocional tanto para as vítimas quanto suas famílias.
Por fim, foi questionado como as pessoas em situação de rua são atendidas hoje na cidade, após a interrupção do serviço da Pousada Garoa. A testemunha relatou a redução do número de vagas dos albergues que prestam serviço de acolhimento à população de rua. “Qual é o argumento? A falta de RH adequado para o atendimento. Isto é uma confissão pública de que a política do município não está funcionando para a população em situação de rua e para a assistência social, e nós temos 5.300 pessoas na rua”, criticou.